DOCES RECORDAÇÕES (Wany Nogueira)

RECORDAÇÕES DE MARIANA E DE OURO PRETO

  Francisco (Chiquim)

 

Francisco Pereira Cupertino – Seminário Menor de 1952 a 1954.

Com muita satisfação, atendo ao convite do Presidente da AEXAM, Helvécio Trindade, para, aqui, neste Canteiro, semear minhas recordações do Seminário Menor de Mariana, como o fariam meus antepassados agricultores, das famílias Pereira, Rodrigues, Costa, Cupertino, Teixeira ou Fontes, que plantavam no solo fértil da Mata mineira suas sementes, na esperança de que, dali viessem boas safras, que lhes permitissem a obtenção de “excedentes exportáveis”, que seriam levados em lombo de burros, em carros de boi, em vagões da estrada de ferro ou em caminhões, rumo ao Rio de Janeiro, a Ouro Preto ou a outro centro consumidor daquela época.

Mariana, primeira Capital de Minas, antiga Ribeirão do Carmo, da época das Capitanias do Brasil Colônia e da descoberta do ouro, tem sido, através dos tempos, palco de muitas manifestações de fé do povo mineiro, guardando em seus museus e na arte sacra de suas inúmeras igrejas, boa parte da história das famílias da Mata mineira. A admiração do povo mineiro por Mariana é histórica, dada a importância que esta cidade teve no contexto econômico da fase do ouro e, posteriormente, pela posição que alcançou como sede do primeiro Bispado (1745) e do primeiro Arcebispado (1906) de Minas Gerais. Dada sua proximidade com Ouro Preto, antiga Capital e berço dos ideais libertários do povo mineiro, não se pode falar de uma das duas cidades, sem falar na outra. Assim, unem-se a fé do povo às suas aspirações de liberdade e de independência, marcadas pelo sonho dos Inconfidentes. É através da fé do povo que se renova, a cada dia, a cada prece, as esperanças em melhores dias para nossa região.

Voltando no tempo, aos anos de 1950, sinto-me percorrendo as ruas de Mariana, em silêncio, em fila dupla, de batina preta, rumo à Catedral da Sé, com o terço e o livro de orações na mão, cumprindo um ritual que, hoje, recordo com nostalgia. Passam-me pela mente os versos de Alphonsus de Guimaraens, em “A Catedral”:

“Entre brumas ao longe surge a aurora / O hialino orvalho aos poucos se evapora, /Agoniza o arrebol. / A catedral ebúrnea do meu sonho / Aparece na paz do céu risonho /Toda branca de sol. / E o sino canta em lúgubres responsos: / ‘Pobre Alphonsus!’ ‘Pobre Alphonsus!’”

 

Estudar no Seminário Menor de Mariana, mesmo por pouco tempo (1952-1954), foi um privilégio e a grande oportunidade de minha vida. O grande desejo das famílias mineiras, da época, era ter um filho (a) padre ou freira, oportunidade que surgiu para meus pais, quando Pe. Othon Fernandes Loures e Dom Cavati, bispo diocesano de Caratinga (1938-1957), enviaram a Mariana, em 1952, uma turma de 12 jovens. Desses enviados, creio que apenas Pedro Crisólogo chegou a padre (aliás, um ótimo padre). Embora curta minha permanência, o Seminário Menor de Mariana influenciou positivamente toda a minha vida.

É possível que, nesses três anos, me sentisse recluso, solitário, amedrontado pelo rigor da disciplina, naqueles amplos salões de estudo. Sofri muitas repreensões que me fizeram meditar sobre o real valor da disciplina e da obediência. A vontade de aprender superou, contudo, as dificuldades de minha adaptação ao regime disciplinar da casa. Na realidade, aprendi muito no Seminário, talvez muito mais que revelasse o meu boletim de notas.

Graças a essa base, pude crescer intelectualmente e prosseguir com sucesso os estudos, concluindo o curso de Agronomia e abraçando a carreira de pesquisador e de professor. Elegi, como meu protetor, o “Santo Voador”, São José de Cupertino, pois na simplicidade das coisas é que reside a felicidade dos pobres.

No início (1952), com saudade de meus pais e irmãos e adoentado, eu perdi a vontade de me alimentar. No horário das refeições, naquele refeitório imenso do Seminário Menor, foi o quase conterrâneo e amigo, Marino Costa, que me alertou, discretamente, que eu poderia ser “mandado embora” se não comesse. Eu lhe sussurrei que não conseguia fazê-lo, pois não tinha apetite. Depois de uma semana sem comer, acabei por adoecer mais ainda, indo parar na enfermaria. Depois de vários vidros de fortificante, precedidos por algum vermífugo, acabei por voltar a me alimentar normalmente, graças a Marino. Em 1955, quando passei a estudar, como aluno interno, no Colégio Salesiano Dom Helvécio, em Ponte Nova, Marino me fez uma visita, sendo esta a última vez que o vi. Ele foi para Belo Horizonte, e eu para Viçosa, onde concluí o curso de Agronomia, rumando para São Paulo, depois de formado, onde segui a carreira de pesquisador. Depois, em Brasília, entrei na carreira de docente universitário.

Uma lembrança que também guardo dos tempos de Seminário Menor, em Mariana, é a foto tirada, em 1953, na escadaria da Capela Nossa Senhora da Boa Morte, junto ao Pe. Othon Fernandes Loures (sentado) e aos colegas, seminaristas da Diocese de Caratinga. Nela aparecem, entre outros, Raul Motta de Oliveira (Monsenhor), José do Carmo Lima (Padre), Marino Costa e Pedro Crisólogo (Padre). Este escriba (de braços cruzados) é o segundo à direita do Pe. Othon. (Veja legenda completa no final)

seminaristasdaDiocesedeCaratingaemMariana-1953

De Ouro Preto, daquela época, guardo agradáveis recordações de sua arte sacra e de sua história. De batina preta e em grupos, empreendemos várias visitas a igrejas da cidade, como as do Pilar e de Nossa Senhora do Rosário, bem como ao Museu da Inconfidência e ao Museu de Mineralogia da Escola de Minas. Fizemos excursões ao Morro da Queimada (de Felipe dos Santos) e ao Pico do Itacolomi, em cujas fraldas preparamos um gostoso café para os colegas e companheiros de excursão, depois de “galgar aquelas alturas”, como falávamos naquela época.

Beber da água de Minas e respirar o ar puro de suas montanhas tem sido um prazer, que se renova, quando aí vamos. Rever os amigos e parentes tem sido a oportunidade de usufruir da proverbial sabedoria mineira.

Brasília, 4/12/2011

F. P. Cupertino (Ex-aluno, 1952-1954)

 

Legenda completa da foto cedida há alguns anos pelo caratinguense e colega de turma José Barbosa de Miranda (o nº 4).

Alunos dos Seminários Menor (SM) e Maior (São José) de Mariana, oriundos da Diocese de Caratinga, junto ao Padre Othon Fernandes Loures (sentado), em 1953: 1. José Magalhães (SM), 2. Maury Sobreira Cortat (SM), 3. Ildeu Torres (SM), 4. José Barbosa de Miranda (SM), 5. Francisco Pereira Cupertino (SM), 6. Roque (SM), 7. Ruy (SM), 8. João Bosco de Souza (SM), 9. José Pinto (SM), 10. Jésus Rocha (SM), 11. Pedro Crisólogo Rosa (SM), 12. Jesuíno Rocha (SM), 13. Francisco Rodrigues Pontes (SM), 14. Raul Motta de Oliveira (São José), 15. NI (São José), 16. Elias (SM), 17. Geraldo Gusmão (SM), 18. Francisco de Assis (SM), 19. NI (São José), 20. Marino da Costa e Silva (SM), 21. Léssio Guedes (SM), 22. Enéas (SM), 23. Inácio (SM), 24. Getúlio (SM), 25. Pedro José da Silva (SM), 26. Geraldo Onives (SM), 27. José Jésus de Araújo (São José), 28. João Beentjes (São José), 29. Odilon Marino do Carmo (São José), 30. José do Carmo Lima (São José), 31. Rubens Hosken (São José), 32. NI (São José).  (NI = Não Identificado)

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ANO LV – NÚMERO 137

Esta é uma edição que contempla principalmente as notícias do GS58 (Grupo Sacerdotal de 1958), revista “Gens Seminarii” – Ano LV– Dezembro 2020 – Número 137.

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