Seminário Menor Nossa Senhora da Boa Morte – Mariana

SEMINÁRIO MENOR NOSSA SENHORA DA BOA MORTE

O Seminário de Mariana foi criado pelo seu primeiro bispo, dom Frei Manoel da Cruz, em 20 de dezembro de 1750, no auge do ciclo do ouro, sob a proteção de Nossa Senhora da Boa Morte, quando a Paróquia de Vila do Carmo (Mariana) contava apenas 47 anos. Inicialmente foi confiado à direção da Companhia de Jesus. Com a perseguição do Marquês de Pombal e a consequente expulsão dos jesuítas, o Seminário foi entregue aos cuidados do próprio clero local. Foi durante cinqüenta anos o único em solo mineiro. No bispado de dom Antônio Ferreira Viçoso, sétimo Bispo de Mariana, no período de 1844 a 1877, a direção do Seminário foi confiada aos seus coirmãos, os padres da Congregação da Missão. Os Lazaristas, como são conhecidos, trabalharam no Seminário de Mariana durante mais de um século, tendo-se retirado no final de 1966, no período da reforma pós-conciliar. Foi na época desses beneméritos educadores, Filhos de São Vicente de Paulo, que o Seminário de Mariana se firmou como importante centro de formação do clero mineiro, estendendo sua influência também a outras regiões do Brasil. Entre seus ex-alunos, além de um grande número de sacerdotes e várias dezenas de bispos, o Seminário de Mariana conta com três cardeais: Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta (antigo arcebispo de São Paulo e Aparecida), Dom Lucas Moreira Neves (antigo Primaz da Bahia e Prefeito da Congregação para os Bispos em Roma), ambos já falecidos e Dom Raymundo Damasceno Assis (Cardeal-Arcebispo de Aparecida) Muitos ex-alunos leigos, hoje como no passado, são figuras importantes no cenário nacional, ocupando posições de destaque na política, na magistratura, no exército e polícia militar, no ensino e em várias e importantes atividades civis. O prédio histórico do Seminário Nossa Senhora da Boa Morte foi restaurado pela Universidade Federal de Ouro Preto e encontra-se cedido a essa instituição.

 

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Carta para El Rey Nosso Snr – 1750

Senhor

Antes de partir do Maranhão para este Bispado dei conta a V.Magde. da grande necessidade que havia nelle de hum Seminário não só para a educação dos Seminaristas nas virtudes e letras mas tãobem para estas se ensinarem aos Estudantes desta Diocese em que não há outros estudos públicos e foi V.Magde. servido na Frota passada conceder-me o seo Real beneplácito, com o qual tendo feito as deligencias possíveis comprei duas grandes cazas com suas terras na melhor e mais agradável paragem desta Cidade e com a repartição e acrescentamento que se lhe fez, se podem receber neste seminário mais de cincoenta seminaristas e já nelle rezidem onze (*). Os estudantes de fora tem crescido tanto o seo numero que sendo a classe grande foi necessário acrescentarse; há já hum Mestre que mandei vir do Colégio da Companhia do Rio de Janeiro e são necessários mais três para lerem Filosofia e Theologia Moral, para o que já para o anno que vem; há estudantes muito capazes e como estes Povos tem muita fee nos estudos da Companhia, reprezento a V.Magde. seja servido mandar ao R.P.Provincial da Campanhia da Bahia detrimine mais três Mestres idôneos para este Seminário, que tãobem se faz muito precizo para nelle terem os exercícios espirituaes de Santo Inácio (?)(…) todos os mais que se quizerem aproveitar deste tão grande bem paramentos. (Dom Frei Manoel da Cruz).

(*) Este seminário inaugurado aqui, ao longo de seus 258 anos de fecunda existência, escreveu uma luminosa história: nele se formou quase todo o clero mineiro dos séculos XVIII e XIX. Na galeria de seus alunos distintos figuram dois cardeais, cinco dezenas de bispos e cinco milhares de padres. Ali talentos foram trabalhados e ilustraram depois as Letras, a Oratória, a Imprensa, a Música barroca e a Política de nosso passado. Celeiro de patriotas (cinco Inconfidentes)

Fonte: “Cadernos Históricos do Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana (volume 5) – Monsenhor Flávio Carneiro Rodrigues e Professora Maria José Ferro Souza” – 2008.

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O SEMINÁRIO E A INCONFIDÊNCIA MINEIRA


Era impossível que o Seminário de Mariana caminhasse alheio às dificuldades impostas ao Brasil por Portugal. Único estabelecimento de ensino superior em Minas Gerais, dali sairiam expoentes da surda luta da Inconfidência Mineira. O primeiro seminarista, Luiz Vieira da Silva, ingressou no seminário no dia 7 de agosto de 1750. Como cônego, quando exercia a função de secretário do Cabido Metropolitano de Mariana, foi preso por estar envolvido com a Inconfidência Mineira. Em seguida foi conduzido a Vila Rica e lá encerrado em uma de suas solitárias preparadas na Casa dos Contratos (Casa dos Contos). Teve seus bens seqüestrados (quase somente livros). Sigilosamente, na Casa dos Contos, sofreu três interrogatórios em 1789, ano em que se deu o enforcamento de Tiradentes. Seguiu para o Rio de Janeiro, onde foi colocado nas masmorras da Ilha das Cobras. Daí o cônego Luiz Vieira da Silva, nosso primeiro ex-colega, foi condenado ao exílio perpétuo na Ilha de São Tomé e à perda de todos os seus bens à Fazenda Real. No entanto o exílio foi comutado em prisão perpétua em Portugal. Quatro anos depois obteve indulto, retornou ao Brasil e consta que teria ido residir em Parati ou Angra dos Reis, no Estado do Rio de Janeiro. Outros padres inconfidentes: Padres Silvestre Dias de Sá, Manoel Rodrigues da Costa, José Lopes de Oliveira e José da Silva de Oliveira Rolim (Padre Rolim), ordenado em Mariana em 1779. Padre Carlos Correia de Toledo e Mello (Padre Toledo) residia em São João Del Rey (hoje Tiradentes), onde a sua casa é hoje Museu da Inconfidência. Ordenado após a viuvez, foi acolitado por dois de seus três filhos padres. O terceiro era bispo em Angola. Daqueles dois filhos, um era também inconfidente. Padre Rolim, Padre Toledo e Padre José Lopes foram condenados à forca, pena esta comutada para degredo perpétuo. Padre Martinho de Freitas Guimarães estudou no Seminário de Mariana e teve por colegas dois irmãos de Tiradentes (o alferes Joaquim José da Silva Xavier): padre Domingos da Silva Xavier e padre Antônio da Silva dos Santos, nascidos em Santa Rita do Rio Abaixo – Fazenda Pombal – hoje pertencente ao município de Tiradentes, e ordenados em Mariana. Frei José Mariano da Conceição Veloso e padre Antônio Rodrigues Dantas, que fora reitor do Seminário de Mariana em 1764, eram primos de Tiradentes. Não há como desvincular a História do Brasil da história do Seminário de Mariana pela importância das Minas Gerais no contexto histórico nacional. Dizia-se que a “Sala da Estrela” era um local de reuniões secretas dos inconfidentes. Será?…

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